segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O Nascimento do Romance - Publicado no Jornal O TEMPO

No aniversário de dois séculos do romance "Razão e Sensibilidade" (1811), o primeiro publicado por Jane Austen, nada melhor do que constatar: os anos não pesam sobre a obra da escritora. Que o provem as mais estranhas adaptações mundo afora.

No Japão, Elinor e Marianne Dashwood, as protagonistas, estão prestes a ganhar contornos de mangá. Em Hollywood, uma comédia com a atriz Camilla Belle vai transportá-las para a comunidade latina de Los Angeles. O caso mais acintoso, porém, é o livro "Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos", que a Intrínseca lança em maio, seguindo a linha frankstein de "Orgulho e Preconceito e Zumbis" - esse já virou graphic novel nos Estados Unidos e em breve chega às telas de cinema, ao que consta com Natalie Portman como a "guerreira" Lizzy.

Felizmente, além das bizarrices, o interesse pela autora desperta também novas publicações sérias. A L&PM está editando todos os seus seis romances - começou pela obra-prima "Orgulho e Preconceito", no ano passado. "Persuasão" sai em abril e, em setembro, publica "Abadia de Northanger", o primeiro escrito, mas só postumamente publicado.

"Orgulho e Preconceito" vai receber também neste semestre uma nova edição em português pela Penguin-Companhia, traduzida por Alexandre Barbosa de Souza. A Companhia das Letras admite ainda a possibilidade de lançar, pela primeira vez no país, uma biografia da autora, já que há várias no catálogo da Penguin em inglês.

"Nos países de língua inglesa, se registra, nos últimos anos, um verdadeiro renascimento de Jane Austen, embora não se possa dizer que ela tenha sido em algum momento esquecida. Claro que no Brasil não acontece a mesma coisa, mas acreditamos que há interesse por parte dos leitores brasileiros por boas traduções da autora", comenta Caroline Chang, editora da L&PM.

De fato. Até porque o mercado brasileiro comporta algumas traduções suspeitas, que não se sustentam numa comparação ligeira com o texto de origem. "O tipo de humor do texto da Jane Austen é irônico, delicado. Precisa ser bem vertido para que mantenha em português a graça do original", completa.

Sentimento. Se "Orgulho e Preconceito" é obra de uma escritora mais madura, "Razão e Sensibilidade" (ou "Razão e Sentimento", dependendo da tradução) já conjugava as qualidades que perpetuariam Jane Austen como a segunda autora mais importante de sua língua - uma das responsáveis por modernizar o romance inglês na virada do século XIX, permitindo que ganhe qualidade e respeitabilidade.

"Ela escreve numa época em que o romance ainda estava se estabelecendo enquanto forma literária. Na Inglaterra, onde surgiu, era repudiado pela sociedade, que não achava de bom tom ler romances. A autora defende o gênero dentro de sua própria obra e reúne diferentes estilos da época, inaugurando um novo romance", diz a professora de literatura inglesa Renata Colasante, citando Henry Fielding (autor de "Tom Jones") como uma grande influência sobre Austen.

Cabe a "Razão e Sensibilidade", portanto, o mérito de apresentar aos leitores ingleses o estilo original da autora. Sob um enredo de desencontros que atrasam a felicidade amorosa, está a crítica às convenções sociais e às relações determinadas pelo dinheiro, revelando, com ironia e humor, o abismo entre os desejos íntimos femininos e suas parcas possibilidades de realização em uma sociedade patriarcal. Ao mesmo tempo, desvela uma perspicaz análise de caráter, que leva em conta sentimentos, discursos e atitudes, e motivou o crítico Harold Bloom a chamar seus personagens de "milagres de personalidade".

Por tudo isso, ecos da literatura de Jane Austen são percebidos em romancistas modernos e contemporâneos, como Virginia Woof e Ian McEwan, que declarou se inspirar na ingênua Catherine Morland, de "A Abadia de Northanger", para criar a Briony de sua obra-prima, "Reparação".


Por Luciana Romagnolli
Publicado no Jornal O Tempo em 08/01/2011

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